Planetário? ah, isso eu não sei

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spica Planetário? ah, isso eu não sei

Mensagem  ajc em Dom 10 Jul 2016, 08:47

Planetário? Ah, isso eu não sei

Estava eu na praça da liberdade curtindo minhas férias vendo a exposição da Yara Tupynambá na Casa Fiat de Cultura quando soube que havia uma sessão no Planetário prestes a começar, próximo dali, no Espaco do Conhecimento UFMG. Eu havia visto uma sessão tão logo o Planetário foi inaugurado, há alguns anos atrás e resolvi ver como as coisas estavam nos dias atuais. Paguei os seis reais no ingresso, na inteira, e subi ao quinto andar para assistir a apresentação.

Não vou me alongar sobre o fiasco da tal sessão mas pelo menos me indignar diante da imagem projetada onde aparecia Saturno, com magnitude atual de +0,2, muito mais brilhante que Marte, magnitude atual de -1,3. Será que um caríssimo projetor importado não consegue ser minimamente fiel ao que estamos vendo? Ou seria incompetência técnica? Fiquei então sabendo que no dia seguinte, quinta feira, haveria sessão de observação no terraço no mesmo andar onde fica o Planetário. Pensei que pudesse ser mais interessante do que o fiasco daquela sessão. Não tinha a noção do tamanho da minha decepção.

Na quinta feira, ao chegar no terraço, fui rapidamente recepcionado por um dos monitores que gentilmente me desejou boas vindas e se prestou a dar informações sobre o que estava previsto. Nada a reclamar da organização: nisso eles são muito profissionais. Talvez até para compensar as lacunas que viriam a seguir. São distribuídas 15 senhas para cada 15 minutos durante 120 minutos. Ou seja, atendem 120 pessoas em duas horas. E funciona bem. Mas falta formação e informação. Falta o principal: o conteúdo, como descrito a seguir.
E o monitor disse:
- Hoje vamos mostrar Saturno. Tem Marte também mas não vale a pena. Ele aparece apenas como uma pequena bolinha alaranjada. Eu não sabia (e continuo sem saber) qual era, precisamente, o telescópio a ser usado mas me pareceu, à primeira vista, ser um C11, um poderoso Smith Cassegrain, de 11 polegadas, da Celestron. Não tem como Marte, com 15 segundos de arco de diâmetro, ficar tão ruim num equipamento desse porte, pensei. Foi quando o monitor falou:
- Apesar do aumento de 180 vezes Marte fica ainda muito pequeno.
Como assim 180 vezes?  pensei. Isso é aumento para 80mm, não para 11 polegadas. Estava sendo traçado o fiasco observacional daquela noite. Ele prosseguiu o teatro de horrores:
- Esse telescópio vai até 900 vezes mas, devido às limitações, ficamos em 180x.
Fiquei curioso sobre tais "limitações". E 900 vezes?
Perguntei sobre Júpiter e ele disse que estava baixo demais para ser apontado. Achei estranho pois Júpiter não estava tão baixo assim. Havia uma projeção do programa Stellarium por um Data Show. Perguntei ao monitor se dava para saber, pelo programa, qual a altura de Júpiter em relação ao horizonte. Ele prontamente localizou o alvo onde mostrava:
- azimute / altura: +330 17 15 / +47 42 22 (aparente).
Então falei: - Ah, 47 graus! E o monitor retrucou:
- Não, é 330 dividido por 47. Eu quis rir mas segurei. - E quanto dá? Perguntei. - Ah, tem que fazer a conta, respondeu o já inseguro monitor. Diante disso mudei o assunto e perguntei o porque daquele telescópio (a ser utilizado na sessão) ser tão curto em relação ao que se vê normalmente onde os telescópios são tubos compridos. Ele disse: - Esse telescópio possui um jogo de espelhos que permite um tubo menor. Achei isso estranho pois jogos de espelhos estão mais para as boates da zona sul do que para telescópios.

Perguntei como se chamava o tal tipo de telescópio. Esperava que dissesse "um catadióptrico" ou "um Smith Cassegrain". Foi quando ele disse:
- Ah, esse nome eu não sei. Sei que é um Celéstron, da Alemanha.
Puxa, pensei, o nome Celestron virou Celéstron! E a empresa americana virou alemã?
Ele não se bastou e continuou:
- Com essa abertura esse telescópio é show.
- Mas não pra Marte, né? insisti. E ainda perguntei: - E qual a abertura desse telescópio?
- Ah, isso eu não sei, respondeu o monitor.
- E qual o modelo desse telescópio? Perguntei.
- Também não sei, respondeu o monitor. - Tem que olhar no manual.
São informações técnicas muito básicas para alguém que se coloque como monitor não saber. O sujeito não sabia o que é um Smith Cassegrain, o que é um Catadióptrico, qual o modelo do telescópio que iríamos usar e nem como interpretar os dados do Stellarium.
Nisso, um curioso que havia se aproximado, entrou na conversa e me disse:
- Se você quiser comprar um telescópio, compre um de espelho. Os de lentes são ruins e fraquinhos.
Segurei pra não rir. Ele não tinha como saber que possuo um telescópio de lentes, "fraquinho", de quase 10 mil reais! E o monitor, concordando, quando o curioso continuou:
- Mas pra começar você pode arrumar um binóculo de 10 “xis”. Ele não falou 10 vezes mas 10 “xis”. E continuou:
- Você poderá ver as 4 luas de Júpiter nele.
Putz, mais um olho biônico aqui, pensei. Ver Io (satélite mais próximo de Júpiter) em 10 vezes de aumento, sem tripé, é muito difícil pela proximidade com Júpiter. Exige vista treinada e uma posição muito favorável pois Io tem que estar o mais distante possível de Júpiter. Mas o monitor também concordou com aquela fala do curioso. Então, chegou a hora de passarmos ao local onde fica o telescópio para a sessão de terror observacional depois desse desajeitado prelúdio.

Um outro monitor, tão ou mais despreparado quanto o primeiro, tomou para si a fala e disse:
- Vamos observar Saturno com apenas 160 vezes pois o sistema de amortecimento do telescópio não funciona bem e não consegue atenuar as vibrações da laje do prédio, o que nos impede de se usar aumentos maiores. E estamos no quinto andar, lembrou. Bem, haviam então dois problemas aí: Não eram 180x? E se o amortecimento não funciona, porque um equipamento tão grande e caro? 180x não funciona bem em 11 polegadas porque a imagem brilha demais e ofusca os detalhes. Há que se usar filtros e polarizadores. E continuei sem saber ao certo se eram mesmo 11 polegadas.

Na minha vez de observar vi, conforme esperado, uma imagem saturada por excesso de luz e de baixo contraste. Não haviam filtros ou polarizadores para atenuar aquele brilho excessivo. Perguntei então ao monitor se todos aqueles pontos no entorno de Saturno seriam estrelas. Eles respondeu que sim. Porém, um outro observador logo depois perguntou se seriam luas e o monitor confirmou. Mas não seriam estrelas? pensei. Então o tal observador disse:
- Tem umas 10 luas aqui!
E o monitor falou:
- Ah, normal, Saturno tem mais de 30 luas!
Diante dessa sacanagem toda indaguei: - E quais são as 10 luas?
- Ah, isso eu não sei, respondeu o monitor. - Tenho que conferir no Stellarium.
- No Stellarium aparecem todos os nomes das luas de Saturno? Perguntei.
Sem resposta, o monitor mudou de assunto ajudando duas adolescentes a baterem fotos ao lado do telescópio. A tietagem se mostrou mais importante que o conteúdo. Divisão de Cassini? Titãn? Inclinação dos anéis? Nenhuma dessas expressões foram ouvidas ali.

Insisti para ver se aquele monitor sabia algo mais sobre o telescópio.
- Qual a abertura desse telescópio?
- Ah, isso eu não sei, respondeu também esse monitor.
- E qual a ocular que está sendo usada?
- Também não sei, respondeu. E perguntou a outro. E os outros monitores também não sabiam. Ninguém sabia como descobrir de quantos milímetros era a ocular. E ninguém sabia o modelo do telescópio. Nem mesmo a distância focal resultante do tal "jogo de espelhos". Realmente não tinha como eles saberem o aumento. Percebi que só havia uma única ocular e apenas uma única possibilidade de aumento. Ao que parece esses monitores receberam algumas instruções, tipo receita de bolo, de como ligar e alinhar o telescópio com duas estrelas para o sistema GOTO funcionar e mais nada.

No quintal da minha casa, nesses dias de ótima visibilidade em Belo Horizonte, eu tenho observado Saturno em 102mm a 223x ou 238x numa imagem muito mais definida do que num suposto C11, sub aproveitado e super dimensionado, onde um simples 8 polegadas cumpriria facilmente o trabalho. Incompetência total.

O que me surpreende nisso tudo é que pessoas sem formação adequada e sem informação suficiente estão consumindo dinheiro público (UFMG) e ocupando espaços que exigem conhecimentos muito específicos. E se mostram em total despreparo e incompetência. Rostinho bonito, gentileza e boa educação não podem ser o bastante para um trabalho desses. Cadê o conteúdo? E, ao que me parece, existe clara diferença entre não passar informações por falta de tempo (são muitas pessoas na fila) ou não passar informações por não saber. Ou pior, passar informações erradas, incompletas ou inconsistentes.

Então, se alguém me perguntar sobre um planetário em BH com terraço de observação vou prontamente responder:
- Ah, isso eu não sei!
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spica Re: Planetário? ah, isso eu não sei

Mensagem  Jonas J em Dom 10 Jul 2016, 12:38

Alguns pontos dá até para relevar, não é mesmo? Uma pronúncia imprecisa ou ele ter explicado que um catadióptrico é proporcionalmente mais curto por usar um jogo de espelhos eu achei a resposta bem válida, dentro do meu também pouco conhecimento, e dentro do contexto de que ele precisaria ilustrar de uma forma clara para (teoricamente) um público iniciante. Já a divisão do valor do azimute pela altura não compreendi onde ele queria chegar e entendo que seja uma informação categoricamente errada.
Infelizmente nosso país não prima pelo aprofundamento. Ainda assim, acho que iniciativas como essa mais colaboram do que atrapalham. Penso também que você poderia ter se apresentado como astrônomo amador e feito algumas correções a ele, um pouco mais reservadamente.
Seu relato foi bastante interessante. Ainda que com esses problemas, fiquei curioso sobre assistir um evento desses.
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spica Re: Planetário? ah, isso eu não sei

Mensagem  Bruno em Dom 10 Jul 2016, 14:18

Eu entendo as queixas do colega ajc, e acredito que sei a causa pois eu tive a oportunidade de trabalhar no departamento de astronomia da UFMG, e quando ocorriam essas apresentações públicas geralmente tinham algum astrônomo ou astrofísico presente (prof. Renato Las Casas e/ou o prof. Túlio), mas o relacionamento com o público normalmente se dava e ao que aparece continua sendo feito através de monitores pré selecionados, que em sua maioria estão cursando Física e ainda desenvolvendo o conhecimento e o gosto pela especialização em astronomia.
Como a observação visual é um processo que só se desenvolve com a prática e ao longo do tempo, então para que o leigo que ainda não desenvolveu a acuidade visual possa olhar pela primeira vez pelo telescópio com sucesso, ou ele vê uma imagem "pequena" porém nítida (com menos ampliação), ou grande porém parecendo "borrada" e difusa. É complicado lidar com o público, principalmente os curiosos que fazem perguntas atrás de perguntas e todas elas precisam ser respondidas satisfatoriamente, fora os que esbarram o olho na ocular engordurando a lente de olho. Certa vez na cúpula menor (Refrator acromático Zeiss Coudé 150mm d/f 2250mm F/D15) do Observatório Frei Rosário da UFMG, no primeiro sábado de um mês lá quando era aberto à visitação pública, numa só noite eu atendi cerca de 1000 pessoas, e mais de 900 nunca haviam observado por uma ocular e o alvo era jupiter que estava em oposição. Se fosse a lua seria bem mais fácil então até entendo a dificuldade em se mostrar uma imagem decente a um olho sem treino, e a solução é usar uma ampliação mais baixa, que apesar de diminuir a imagem mostra mais detalhes numa abertura de grande porte como a desse SC, e facilita bastante o posicionamento do olho ou a centralização dele na ocular.
Se de fato aquele SC lá no Espaço do Conhecimento (mais precisamente no Terraço Planetário) possui 11" de abertura, o aumento normal dele é de 279x, e a ampliação máxima teórica com um seeing excepcional é de 699x e não 900x.
Quanto à desinformação de algum ou alguns monitores isso não deveria acontecer, por que diversas questões podem ser apresentadas e ele ou eles poderão "se enrolar", e se não souber responder ou responder de forma incorreta, para o leigo não vai fazer muita diferença mas para nós que temos algum conhecimento vai "doer nos ouvidos".
É importante que este tipo de evento aconteça e continue a acontecer, e seria interessante que algum de nós que more na região da grande BH ou proximidades, pudesse entrar em contato pessoalmente com eles, e expor essas questões que uma vez reavaliadas só viriam a acrescentar.
E quanto ao Schimidt Casseigran ele pode até ter sido comprado na Alemanha por que o planetário foi importado de lá (a Zeiss faz os melhores), mas se o SC é da Celestron certamente ele foi fabricado na China.
Segue no link informações para quem quiser variar e dar um passeio astronômico, e conhecer de perto o telescópio do Terraço planetário no espaço cultural da UFMG na praça da Liberdade em BH: http://m.guiabh.com.br/programacao/programacao-no-espaco-do-conhecimento-ufmg


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